A investigação começou em 2012, no Núcleo de Repressão aos Crimes contra a Saúde (Nucrisa, delegacia especializada da Polícia Civil do Paraná). Denúncias de funcionários e familiares relatavam mortes em sequência na UTI geral do Hospital Evangélico, um dos maiores de Curitiba e referência no atendimento pelo SUS.
Com autorização judicial, a polícia grampeou telefones da equipe. Nas conversas, a chefe da unidade falava de pressa por vagas, de pacientes que “não iam sair” e de mudanças na ventilação. Um trecho virou manchete nacional. Num telefonema de 2013 transcrito no inquérito, Virgínia diz: “Eu quero desentulhar a UTI, que está me dando coceira.”
A tese da polícia descrevia um método. Segundo o inquérito, pacientes recebiam doses de bloqueador neuromuscular (remédio que paralisa os músculos, inclusive os da respiração) e tinham reduzido o oxigênio do respirador. Sem o aparelho no ajuste anterior, o paciente paralisado não conseguiria respirar sozinho.
A prisão de 19 de fevereiro de 2013 foi temporária e virou preventiva (prisão sem prazo fixo, decretada para proteger a investigação). Virgínia ficou presa cerca de um mês e saiu por habeas corpus (ordem judicial que manda soltar o preso), concedido pelo Tribunal de Justiça do Paraná.
Na saída, a defesa repetiu a linha que manteria até a sentença. Os remédios citados eram de uso comum em terapia intensiva, as mudanças de ventilação constavam dos prontuários e as decisões de suporte eram tomadas com a equipe, sem segredo. Para os advogados, a polícia tinha transformado o vocabulário áspero de uma plantonista exausta em plano de extermínio.
Com a repercussão, o caso cresceu. A polícia passou a revisar prontuários de anos anteriores, e a imprensa publicou estimativas de dezenas e até centenas de óbitos suspeitos, sem que nenhuma delas virasse acusação formal. O Ministério Público ficou com sete casos, os que considerou mais documentados.
A denúncia de 2013 imputou a Virgínia sete homicídios qualificados por recurso que impossibilitou a defesa das vítimas, pacientes sedados e sem condição de reagir. Outros médicos, enfermeiros e uma fisioterapeuta da equipe responderam como participantes.
Em abril de 2017, depois de quatro anos de instrução, o juiz da vara do Júri de Curitiba concluiu que os laudos não permitiam afirmar que os remédios e os ajustes de aparelho causaram as mortes. Absolveu todos os réus sumariamente, com base no artigo 415 do Código de Processo Penal.
Em que pé o caso está em cada esfera
Na esfera penal, a absolvição sumária de 2017 foi decidida em primeira instância. O Ministério Público do Paraná anunciou recurso; o resultado no Tribunal de Justiça não foi divulgado nas fontes consultadas para esta edição.
Na esfera administrativa, o Conselho Regional de Medicina do Paraná abriu apuração ética sobre a médica, e o desfecho dela não foi divulgado. Na esfera civil, não foi divulgada sentença de indenização a famílias dos pacientes. Na esfera trabalhista, não foi divulgada ação entre Virgínia e o hospital.
Quanto a quem responde pelo quê: Virgínia foi acusada como autora das sete mortes; os demais profissionais da equipe, como participantes; todos foram absolvidos na mesma decisão de 2017, na vara do Júri de Curitiba.
Virgínia voltou à vida civil depois da decisão. Não foi divulgado se retomou a chefia de alguma UTI, e ela deu poucas entrevistas sobre o caso, sempre para repetir que nunca abreviou a vida de ninguém.
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