O vendedor típico era homem, entre 20 e 30 anos, desempregado ou em bico, com dívida em mercearia ou agiota. O aliciador não falava em venda. Falava em doação a um parente distante, uma história ensaiada para os exames no hospital sul-africano.
Antes de viajar, cada recrutado fazia exames de sangue em laboratórios de Recife. O resultado ia para a rede, que cruzava a compatibilidade com a lista de receptores à espera. Só embarcava quem tinha par. Quem não servia voltava para casa sem nada, e muitos voltavam semanas depois para refazer os exames, na esperança de cair na lista de outro paciente.
Em Durban, o vendedor ficava numa casa alugada, passava por nova bateria de exames e era internado no St. Augustine's, hospital da rede privada Netcare. Lá assinava papéis em inglês, língua que a maioria não lia, declarando parentesco ou amizade com o receptor.
A cirurgia era a nefrectomia, a retirada de um rim, feita por equipe local. O receptor era operado no mesmo hospital, na sala ao lado, e voltava para casa com o órgão novo. O brasileiro recebia alta em poucos dias e o dinheiro em espécie, em dólar.
O pacote do receptor incluía passagem, cirurgia e internação. Os relatos ouvidos pela Polícia Federal e pela CPI indicam que tudo o que o receptor pagava acima do valor entregue ao vendedor ficava com a rede.
A volta era o trecho sem cuidado. Nenhum vendedor ouvido pela CPI relatou consulta de retorno marcada no Brasil. Quem vive com um rim só precisa medir pressão e função renal com regularidade, exame que a rede nunca pagou depois do embarque de volta.
Onde o caso está hoje
Na esfera penal brasileira, a Justiça Federal em Pernambuco condenou em primeira instância, em 2004, os aliciadores presos na operação, entre eles Gedalya Tauber e Ivan Bonifácio da Silva, por tráfico de órgãos com base na Lei 9.434. As penas exatas de cada réu não foram reunidas em fonte pública única. Parte dos vendedores também foi denunciada.
Na África do Sul, a Netcare Kwa-Zulu, braço da rede hospitalar, admitiu culpa em 2010 num tribunal de Durban e aceitou multa e confisco de valores. Cirurgiões e funcionários do hospital chegaram a ser acusados, e a acusação contra eles não terminou em condenação.
Na esfera civil, não foi divulgada indenização paga aos vendedores brasileiros.
Quem responde pelo quê, e onde:
• Aliciadores: condenados no Brasil, 2004
• Gedalya Tauber: condenado no Brasil, 2004
• Netcare Kwa-Zulu: multa em Durban, 2010
• Cirurgiões de Durban: sem condenação
• Receptores estrangeiros: nunca processados
No Brasil, a rede foi julgada até a porta do avião.
|