Afrânio Arsênio de Lemos trabalhava em banco e circulava pela vida noturna da Zona Sul. Tinha namorado Marina de Andrade Costa, jovem de família de classe média alta. Quando o romance acabou, ela passou a sair com Alberto Jorge Franco Bandeira, tenente da Aeronáutica dez anos mais novo que o bancário.
Segundo a denúncia, o atrito começou com a fotografia. Afrânio guardava um retrato de Marina com a dedicatória “Ao meu forninho adorado, com todo o amor”, e o tenente queria o retrato de volta. A acusação sustentou que Bandeira foi tirar satisfação com o rival na noite do crime.
O encontro, pela versão de Walton Avancini, aconteceu em frente ao Iate Clube, na Urca. Avancini estava no carro com Afrânio. Contou que o bancário deu um tapa no tenente e que Bandeira reagiu com três disparos. Disse que fugiu a pé enquanto o atirador ficava com o corpo.
Ainda pela mesma versão, Bandeira colocou o corpo no Citroën, dirigiu até a Lagoa e largou o carro na ladeira. Foi ali que o veículo apareceu, com a vítima dentro e as marcas de coronhada que a perícia registrou. A arma do crime não foi divulgada como apreendida em nenhuma das fontes consultadas.
Bandeira foi preso e negou tudo. Seus advogados apontaram outro suspeito, o vigilante Abedil Teixeira Bastos, e atacaram a credibilidade de Avancini, que tinha maus antecedentes e mudou detalhes do relato ao longo dos depoimentos. Marina depôs e virou personagem de capa. Em plenário, confirmou o namoro com o tenente e o rompimento anterior com Afrânio, sem dizer ter presenciado o crime.
O julgamento de 28 de março de 1954 lotou o fórum. Os jurados aceitaram a tese da acusação, e o juiz fixou a pena em 15 anos de reclusão por homicídio. Bandeira cumpriu metade da pena e saiu em liberdade condicional.
Em que pé o caso ficou em cada esfera
Na esfera penal, a condenação de 1954 recebeu depois indulto (perdão da pena concedido pelo presidente da República) no governo de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1961. Mais tarde, o júri foi anulado e um novo julgamento chegou a ser designado nos anos 1970. Antes que ele terminasse, em 1973, a punibilidade foi declarada extinta por prescrição.
A versão de que Bandeira saiu absolvido circula até hoje. As fontes jurídicas consultadas registram outro desfecho: anulação seguida de prescrição, o que encerra o processo sem condenação e também sem absolvição pelo mérito.
Na esfera civil, não foi divulgada ação de indenização da família de Afrânio contra o tenente. Na esfera administrativa, não foi divulgada punição disciplinar de Bandeira pela Aeronáutica.
Quanto a quem responde pelo quê: Bandeira foi o único réu, condenado pelo júri do Rio em 1954 e liberado da punição pela prescrição em 1973; Avancini foi testemunha de acusação; Abedil foi apontado pela defesa e não foi divulgado que tenha sido denunciado.
Não foi divulgado se a família de Afrânio atuou no processo como assistente de acusação (parte que reforça o promotor). O que se sabe é que ela viu a pena de 15 anos virar indulto, anulação e prescrição em pouco mais de duas décadas.
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