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Os 700 quilos de ouro de Guarulhos seguem sumidos

Guarulhos · Terminal de cargas do aeroporto · julho de 2019

Pátio de terminal de cargas aéreas ao entardecer, com caixas lacradas

Terminal de cargas do aeroporto de Guarulhos

▼

RESUMO PRELIMINAR

Homens vestidos de policial federal entraram no terminal de cargas de Guarulhos em julho de 2019, levaram mais de 700 quilos de ouro, e a carga nunca voltou ao cofre.

24 de julho de 2019, noite: em Guarulhos, na Grande São Paulo, homens armados rendem a família de um funcionário que trabalha no terminal de cargas do aeroporto internacional. A mulher e a filha ficam sob vigilância, segundo a investigação da polícia paulista, e o funcionário recebe ordem de colaborar no dia seguinte. Ele conhece o armazém, os horários e os colegas da guarita. O grupo passa a noite com a família e com o plano pronto.

25 de julho de 2019, à tarde: duas caminhonetes com adesivos e giroflex no padrão de viatura da Polícia Federal chegam ao acesso de veículos do terminal. Os ocupantes vestem coletes e carregam distintivos. Mostram documentos na guarita, e a cancela sobe. Ninguém liga para a base da Polícia Federal no próprio aeroporto, a poucos minutos dali, para perguntar se havia diligência marcada naquela tarde.

Minutos depois, no mesmo 25 de julho: dentro do armazém, o grupo vai direto ao lote de ouro em barras, pronto para embarque ao exterior. Mais de 700 quilos sobem para os veículos. Nenhum tiro é disparado, e a carga deixa a área restrita pelo mesmo caminho por onde entrou, em menos de uma hora. Quando o alarme corre entre os funcionários, as caminhonetes já estão nas ruas de Guarulhos, longe da cerca do aeroporto.

Fim de julho de 2019: a Polícia Civil de São Paulo anuncia as primeiras prisões de suspeitos. Veículos usados na ação aparecem abandonados, e a investigação reconstrói o plano a partir das câmeras do terminal, de telefones e de depoimentos. A família do funcionário é libertada sem ferimentos. O funcionário conta à polícia a noite que passou sob ameaça, mas é preso e confessa que fazia parte da quadrilha.

Outubro de 2026: sete anos depois, há gente presa e processada, e o ouro não voltou. A edição percorre três pontos. Primeiro, a carga e a tarde dentro do armazém. Depois, o portão que confiou na aparência de polícia. Por último, o caminho pelo qual uma barra com número de série vira metal sem dono.

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I  O Caso

Uma tarde de julho no armazém

O ouro levado do terminal de Guarulhos estava em barras, lacrado e com destino certo: voos internacionais rumo a compradores no exterior. A carga pertencia a mineradoras que operam no Brasil e passava pelo armazém como passa toda exportação de metal precioso, sob guarda de empresa especializada em transporte de valores.

O valor divulgado na época ficou perto de R$ 120 milhões. O número subiu desde então com a cotação do metal. O peso, mais de 700 quilos, cabe na caçamba de uma caminhonete comum. Em ouro, uma fortuna inteira se move com dois homens e um carrinho de carga.

O terminal de cargas do Aeroporto Internacional de Guarulhos é o maior do país em volume de carga aérea. Por ali passam remédios, eletrônicos, peças de máquina e, em dias marcados, metal precioso. A movimentação de valores segue protocolo: horário combinado, escolta, conferência e cofre.

No dia do roubo, segundo a reconstrução da polícia divulgada pela imprensa, os veículos falsos entraram pela área de acesso de veículos do terminal. Os homens usavam roupas e acessórios no padrão da Polícia Federal. O funcionário, recrutado pela quadrilha e depois condenado com ela, acompanhava o grupo.

Dentro do armazém, a ação foi curta. Os ladrões renderam funcionários, foram ao ponto onde a carga aguardava o embarque e carregaram as caixas. Câmeras gravaram parte da ação; as imagens mostram homens calmos, sem pressa aparente, como numa diligência de rotina. Quem trabalhava perto viu policiais em serviço e seguiu com o próprio turno, sem motivo aparente para desconfiar de colete e distintivo.

O que a investigação apurou

A Polícia Civil de São Paulo assumiu o caso e, nas semanas seguintes, anunciou prisões de suspeitos ligados à execução, ao planejamento e à logística. A investigação concluiu que o grupo conhecia a rotina do terminal com detalhe: o horário da carga, o lugar do lote e o caminho de saída. O desenho indicava informação vinda de dentro.

Os presos passaram a responder por roubo, associação criminosa e extorsão mediante sequestro, pela família feita refém. Os processos correram na Justiça paulista ao longo dos anos seguintes, com réus de papéis diferentes no plano. Uns teriam dirigido, outros vigiado a família, outros desenhado a entrada. A polícia trabalhou com a hipótese de um núcleo maior, com financiador e comprador do metal, nem todos alcançados.

Nenhuma busca, porém, encontrou o metal. Endereços foram vasculhados, veículos periciados e contas investigadas, e o ouro não apareceu em nenhum deles. As mineradoras registraram a perda, e o lote de exportação saiu da estatística do aeroporto como carga roubada.

Houve prisões e processos; nenhuma barra voltou ao cofre.

 
 

II  A Falha

O portão confiou no adesivo

O roubo de Guarulhos dispensou túnel, explosivo e troca de tiros. Bastaram uma caminhonete pintada, um colete, um documento com aparência oficial e um funcionário de dentro. O controle de acesso do terminal aceitou o que viu.

Área de carga de aeroporto é zona restrita. Para entrar, veículo e pessoa precisam de credencial emitida pela administradora, com nome, função e prazo. Polícia em diligência é exceção prevista: agente federal tem atribuição dentro do aeroporto, e a guarita tende a abrir para quem chega com o uniforme da instituição.

O grupo usou exatamente a exceção. Ao se apresentar como Polícia Federal, transformou a dúvida do vigilante em risco de desobedecer autoridade. Conferir por telefone com a base da PF no próprio aeroporto levaria minutos, e o portão se abriu antes deles.

Onde o protocolo cedeu

1. Na guarita: o documento apresentado valeu como prova de identidade, sem confirmação com a instituição que o teria emitido.

2. No armazém: o lote de ouro estava num ponto conhecido pela quadrilha, e o horário da retirada coincidia com a janela de embarque.

3. Na saída: os veículos deixaram a área restrita sem bloqueio, porque o alerta dependia de alguém perceber o roubo a tempo.

A outra peça foi o funcionário, que confessou integrar a quadrilha. Sequestrar a família de quem tem acesso é método antigo em roubo a banco e a carro-forte, e chegou ao aeroporto com a mesma lógica: o crachá legítimo pesa mais que qualquer papel forjado, e o medo garante a obediência.

O terminal guardou o ouro com cofre e escolta, e entregou o portão à aparência.

Depois do roubo, a concessionária do aeroporto e as autoridades anunciaram revisão dos procedimentos de acesso à área de cargas. O detalhe das medidas não foi divulgado por inteiro, como é comum em segurança aeroportuária, e o público não tem como medir o quanto o portão mudou.

O caso expôs um ponto cego comum a grandes terminais. A segurança costuma ser desenhada contra o invasor que força a entrada, com muro, câmera e alarme. Contra quem chega pela porta da frente, de farda e papel na mão, o sistema depende do julgamento de um vigilante em poucos segundos, diante de alguém que diz ser polícia.

A conferência custava um telefonema. Um número fixo da base da PF, uma pergunta sobre a diligência e uma espera de dois ou três minutos com a cancela baixa. Nenhum desses passos estava escrito como obrigatório para o vigilante daquela tarde, segundo o que veio a público.

 

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III  O Sistema

O ouro sem número de série

Mais de 700 quilos de ouro em barras não se vendem no balcão de uma loja. Para virar dinheiro, o metal precisa ser derretido, misturado e devolvido ao mercado com papel de origem. A carga de Guarulhos nunca foi localizada, e o caminho mais provável, segundo especialistas ouvidos pela imprensa na época, passa por fundição clandestina.

Barra de mineradora sai com marca, número e certificado. Derretida, perde as três identificações em minutos. O ouro resultante tem a mesma aparência de qualquer outro, e só um documento diz de onde ele veio.

No Brasil, o documento frágil por anos foi a nota da compra de ouro de garimpo. A Lei 12.844, de 2013, permitia ao comprador presumir a boa-fé do vendedor e aceitar a declaração de origem sem conferir a lavra. O Supremo Tribunal Federal suspendeu a regra em 2023, depois de investigações ligarem o mecanismo à lavagem de ouro ilegal da Amazônia.

Como uma barra roubada some

O desenho é conhecido de quem investiga crime com metal. O ouro roubado entra numa fundição sem registro, sai em formato diferente, ganha nota de compra como se tivesse saído de um garimpo e segue para refinadoras, joalherias ou exportação. Cada etapa tem um papel, e nenhuma confere a anterior.

A partir de 2023, a Receita Federal passou a exigir nota fiscal eletrônica nas operações com ouro como ativo financeiro, e a Polícia Federal trabalha com análise química para apontar a região de origem do metal apreendido. As duas ferramentas chegaram depois de 2019. A nota eletrônica liga cada venda a um CNPJ e a um registro consultável pela fiscalização. A análise química compara a assinatura do metal com amostras de minas conhecidas e aponta, com margem, a região de onde ele saiu.

Uma barra derretida guarda a química da mina e perde o número do cofre.

Para o ouro de Guarulhos, nenhuma das ferramentas chega a tempo. A carga saiu do terminal com identificação de mineradora e, se foi fundida, entrou no mercado anos antes da nota eletrônica. O processo penal seguiu contra quem foi identificado na ação, e a trilha do metal parou na saída do armazém.

Fechar a porta do terminal, com conferência de toda viatura na base da polícia antes da cancela subir, ou fechar a porta da fundição, com registro de origem lido em cada barra que entra no mercado. As duas travas estão na mesa desde julho de 2019, e o ouro levado naquela tarde segue fora do cofre.

 
 
Quiz da edição

Segundo a reconstrução da polícia, quanto tempo durou a ação dentro do armazém de Guarulhos, da chegada das caminhonetes falsas até a saída da carga de ouro da área restrita?

ACerca de três horas
BPouco mais de duas horas
CMenos de uma hora
DQuase quatro horas

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