Crimes de Maio ficou como a forma de chamar as mortes de civis em São Paulo entre 12 e 20 de maio de 2006, depois dos ataques do PCC. O relatório da Justiça Global e de Harvard, de 2011, descreve a maioria das vítimas civis como homens jovens, moradores de bairros pobres, mortos à noite, perto de casa, muitos sem nenhum registro criminal.
Um deles era Edson Rogério Silva dos Santos, gari, 29 anos, baleado em Santos na noite de 15 de maio, segundo o relato da família, logo depois de uma abordagem policial num posto de gasolina. A mãe dele, Débora Maria da Silva, passou a reunir outras mães da Baixada Santista e da capital que tinham perdido filhos naquela semana.
Desse grupo nasceu o Movimento Mães de Maio. As mães recolheram certidões de óbito, laudos e boletins por conta própria, levaram os papéis à Defensoria Pública e ao Ministério Público e, ano após ano, voltaram às portas da Secretaria da Segurança Pública pedindo a reabertura dos casos.
O estado era governado por Cláudio Lembo, vice que tinha assumido em março de 2006 com a saída de Geraldo Alckmin para disputar a Presidência. A Segurança Pública estava com o secretário Saulo de Castro Abreu Filho. O governo negou ter negociado com o PCC o recuo dos ataques.
A soma dos civis não saiu da contagem oficial da época. A Secretaria da Segurança Pública divulgou, nos dias seguintes, totais de suspeitos mortos em confronto, mas não divulgou lista nominal dos baleados por encapuzados. O número de 505 apareceu quando os pesquisadores cruzaram registros de óbito por arma de fogo dos nove dias com os boletins de cada distrito.
O relatório de 2011 também registrou, nos laudos necroscópicos (o exame do corpo feito no Instituto Médico Legal) a que teve acesso, tiros na cabeça e disparos feitos a curta distância em parte dos civis. Para os pesquisadores, o padrão combina com execução.
Em que pé o caso está em cada esfera
Na esfera penal, os ataques do PCC contra policiais e agentes viraram ações contra integrantes da facção. Para os civis mortos por encapuzados, a maior parte dos inquéritos foi arquivada sem autor, segundo o relatório de 2011. Não foi divulgado um balanço oficial de denúncias ou condenações de policiais por essas mortes.
Na esfera civil, famílias moveram ações individuais de indenização contra o Estado de São Paulo, muitas com apoio da Defensoria Pública. Não foi divulgado acordo coletivo nem valor padrão pago às famílias dos 505 civis.
Na esfera administrativa, não foi divulgada punição disciplinar de policial ligada às execuções daqueles nove dias.
Na esfera trabalhista, não há disputa conhecida: as vítimas civis não tinham vínculo de trabalho com o Estado.
Quem responde pelo quê:
• Integrantes do PCC: ações penais.
• Encapuzados: nunca identificados.
• Estado de São Paulo: ações individuais.
• Policiais dos confrontos: sem condenação divulgada.
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