A Americanas devia aos bancos e lançava essa dívida como se fosse conta de fornecedor. A operação se chama risco sacado (o banco paga o fornecedor à vista e a varejista quita o banco depois, com juros). O dinheiro devido era empréstimo, e o balanço o mostrava como mercadoria comprada a pagar, sem o custo financeiro e sem pesar no endividamento que os bancos e as agências acompanham.
No comunicado de 11 de janeiro de 2023, a empresa descreveu o problema como “inconsistências em lançamentos contábeis redutores da conta fornecedores realizados em exercícios anteriores”. Em 13 de junho de 2023, num novo fato relevante, a diretoria que assumiu depois de Rial trocou a palavra e passou a chamar o caso de fraude.
O relatório apresentado em junho apontou dois mecanismos. O primeiro era o risco sacado registrado no lugar errado. O segundo eram as verbas de propaganda cooperada (dinheiro que fornecedores pagam ao varejista para divulgar seus produtos), lançadas em valor inflado ou sem contrato que as sustentasse. As duas pontas melhoravam o lucro e escondiam dívida ao mesmo tempo.
O efeito aparecia nos indicadores que o mercado usa para medir saúde financeira. Com a dívida bancária fora da conta de empréstimos, a alavancagem (quanto a empresa deve em relação ao que gera de caixa) parecia baixa, e a Americanas captava dinheiro novo com juros de quem tem as contas em ordem. As agências de classificação de risco mantinham notas altas apoiadas nesses números.
Na republicação dos balanços, em novembro de 2023, o efeito acumulado das correções no patrimônio da companhia ficou perto de R$ 25 bilhões. O plano de recuperação judicial foi aprovado pelos credores em dezembro de 2023 e homologado pela 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro em fevereiro de 2024. Os acionistas de referência, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, aportaram R$ 12 bilhões no plano e afirmaram desconhecer a fraude.
Onde o caso está hoje
Na esfera penal, a Polícia Federal deflagrou a Operação Disclosure em 27 de junho de 2024, com mandados de prisão preventiva contra o ex-presidente Miguel Gutierrez, que comandou a empresa por cerca de 20 anos até o fim de 2022, e contra a ex-diretora Anna Christina Ramos Saicali. Os dois estavam fora do Brasil. A investigação apura manipulação de mercado, uso de informação privilegiada (vender ação sabendo do problema antes do público), associação criminosa e lavagem de dinheiro. Gutierrez foi detido no exterior no dia seguinte e solto sob medidas cautelares. Até a apuração desta edição, não foi divulgada sentença penal no caso.
Na esfera administrativa, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão federal que fiscaliza o mercado de ações) abriu processos sobre a conduta de ex-administradores. Na Câmara dos Deputados, a CPI das Americanas encerrou os trabalhos em setembro de 2023 com relatório final sem pedido de indiciamento.
Na esfera civil, a recuperação judicial segue sob a 4ª Vara Empresarial do Rio, e a companhia move ações contra ex-administradores para reaver valores; não foi divulgada condenação civil com valor fixado. Na trabalhista, não foi divulgada ação ligada à fraude contábil.
Quem responde pelo quê, e onde:
• Miguel Gutierrez: denunciado pelo MPF, 2025
• Anna Saicali: denunciada pelo MPF, 2025
• Rial e Covre: renúncia, sem acusação
• PwC: sem punição divulgada
• Lemann, Telles e Sicupira: aporte, negam saber
O empréstimo dos bancos virou, no papel, compra de mercadoria a pagar.
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