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O Museu Nacional queimou com os hidrantes secos

Rio de Janeiro · Quinta da Boa Vista · setembro de 2018

Fachada de palácio neoclássico em ruínas, enegrecida pela fumaça, à noite

Paço de São Cristóvão, Quinta da Boa Vista

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RESUMO PRELIMINAR

O Museu Nacional, no Rio, perdeu quase todo o acervo num incêndio em setembro de 2018, num palácio de 200 anos sem chuveiros automáticos e sem água nos hidrantes vizinhos.

6 de junho de 1818: Dom João VI cria no Rio de Janeiro o Museu Real, origem do Museu Nacional. Em 1892 a instituição se muda para o Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, o palácio onde morou a família imperial. Em 1946 passa a ser administrada pela Universidade do Brasil, a atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Junho de 2018: o museu completa 200 anos com um acervo calculado pela própria UFRJ em cerca de 20 milhões de itens. Ali ficavam Luzia, o crânio humano mais antigo já achado nas Américas, múmias egípcias, a maior coleção de insetos do país, gravações de línguas indígenas sem falante vivo e o meteorito Bendegó, de mais de cinco toneladas. No mesmo mês, a universidade assina com o BNDES (o banco federal de desenvolvimento) um contrato de restauro que incluía um projeto contra incêndio.

2 de setembro de 2018, domingo, por volta das 19h30: o museu já está fechado ao público quando os vigilantes percebem fumaça. As chamas tomam os três andares do palácio em poucas horas. Os bombeiros chegam e encontram os dois hidrantes mais próximos sem pressão. Parte da água vem de caminhões-pipa e do lago da Quinta. Às 21h, as chamas já saem pelas janelas do segundo andar, ao vivo na televisão. Ninguém se fere.

3 de setembro de 2018, de manhã: sobram as paredes externas. Pesquisadores entram nos escombros para resgatar o que der, e a pergunta passa a ser por que um prédio com aquele conteúdo ardia sem nenhum sistema que segurasse o fogo nos primeiros minutos.

Outubro de 2026: a edição reconstrói a origem do fogo e o estado do caso nas esferas da Justiça, depois mostra o documento que faltava ao palácio e termina no modelo que deixa museu federal sem dono para a segurança.

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I  O Caso

Três aparelhos no auditório

A resposta de ontem

Em que cidade a polícia prendeu Miguel Gutierrez?

Em Madri, na Espanha. Miguel Gutierrez, que tem cidadania espanhola, foi detido em 28 de junho de 2024, um dia depois da Operação Disclosure da Polícia Federal, e solto pela Justiça espanhola no dia seguinte, com passaporte retido e obrigação de se apresentar ao tribunal enquanto o pedido brasileiro de extradição tramitava.

A perícia da Polícia Federal localizou o começo do incêndio no auditório Roquette-Pinto, no térreo do palácio. Ali funcionavam três aparelhos de ar-condicionado. Segundo o laudo divulgado em 2019, um deles aqueceu e deu início ao fogo, num ponto onde a instalação elétrica não seguia o que o fabricante pedia.

O laudo listou as falhas de instalação: aparelhos sem aterramento (o fio que desvia para o chão a corrente que escapa) e sem disjuntor próprio para cada um, a peça que corta a energia quando o consumo passa do limite. Com o disjuntor coletivo, a sobrecarga de um aparelho não desligava o circuito a tempo.

Do auditório, o fogo subiu pelas estruturas de madeira, pelos forros e pelas escadas de um prédio erguido no século 19 e adaptado por partes ao longo de dois séculos. O palácio guardava material inflamável em quase toda sala: papel de arquivo, coleções conservadas em álcool, peças de madeira e tecido.

Os peritos não encontraram sinal de incêndio provocado. A conclusão técnica foi de fogo acidental, de origem elétrica.

O horário ajudou as chamas. Num domingo à noite, com o museu fechado, havia só a equipe de vigilância no prédio. Quando o Corpo de Bombeiros foi chamado, o auditório já estava tomado e o fogo tinha alcançado o primeiro andar.

O que se perdeu foi medido aos poucos. A UFRJ estima que a maior parte do acervo foi destruída. Das coleções de entomologia (o estudo dos insetos) e de aracnídeos, quase nada sobrou. O meteorito Bendegó saiu intacto. Em outubro de 2018, a equipe de resgate anunciou ter achado nos escombros cerca de 80% dos fragmentos do crânio de Luzia, que vinham sendo remontados.

Foram ao chão também o trono do rei Adandozan, do Daomé, enviado a Dom João VI no começo do século 19, os afrescos de Pompeia trazidos pela imperatriz Teresa Cristina e boa parte dos registros de antropologia. A biblioteca central, num prédio separado no Horto Botânico, escapou, assim como coleções guardadas em anexos.

A conservação do palácio, inclusive da rede elétrica e dos aparelhos de ar, cabia à UFRJ, que contratava serviços de manutenção por licitação. A conclusão técnica divulgada apontou a causa do fogo sem atribuir culpa nominal a pessoa ou empresa, e a relação de quem instalou cada aparelho não foi tornada pública.

Onde o caso está hoje

Na esfera penal, a Polícia Federal abriu inquérito para apurar crime de incêndio culposo, aquele causado por descuido, sem intenção. Em julho de 2020, a PF concluiu o inquérito sem responsabilizar ninguém e descartou ação criminosa e omissão dos gestores.

Na esfera civil, o Ministério Público Federal já acompanhava, antes do fogo, as condições de segurança do prédio, e não foi divulgada condenação com valor fixado por causa da perda. Na administrativa, não foi divulgada punição a dirigente da UFRJ ou do museu. Na trabalhista, não houve ação ligada ao caso, porque ninguém se feriu.

Quem responde pelo quê, e onde:

• UFRJ: gestora, sem punição divulgada

• Gestores do museu: omissão descartada pela PF

• Manutenção elétrica: sem acusação divulgada

• Concessionária de água: sem ação divulgada

• União: financia a reconstrução

Um aparelho mal ligado num auditório bastou para levar dois séculos de coleção.

 
 

II  A Falha

O palácio sem chuveiros

Um prédio com aquele acervo precisaria de chuveiros automáticos, os sprinklers (bicos no teto que soltam água sozinhos quando a temperatura sobe), de portas corta-fogo entre as alas e de alarme ligado a uma central. O palácio não tinha os chuveiros nem as portas. O fogo correu de sala em sala sem barreira.

Sem chuveiro, o combate depende de quem chega de fora. Do primeiro aviso até a chegada do caminhão passam minutos, e num prédio de madeira e papel esses minutos decidem quantas salas se perdem. A norma trata o chuveiro como a primeira defesa, e o hidrante da rua como a segunda.

No Rio de Janeiro, quem certifica que um prédio pode receber público é o Corpo de Bombeiros, pelo Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico do estado. O museu funcionava sem projeto de prevenção aprovado e sem o certificado dos bombeiros para aquela ocupação, segundo informaram a UFRJ e a própria corporação depois do incêndio.

O projeto existia no papel. O contrato assinado com o BNDES em junho de 2018 previa R$ 21,7 milhões para o restauro, e uma das etapas era justamente o sistema contra incêndio. O dinheiro não tinha sido liberado quando o fogo começou, três meses depois da assinatura.

Prédio tombado tem regra própria. O Paço de São Cristóvão é protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e obra que mexa em teto, piso ou parede precisa da aprovação do instituto. Passar tubulação de chuveiros num forro do século 19 exige projeto específico, mais caro e mais lento. Museus europeus instalados em palácios antigos usam tubos embutidos e, nas salas de papel, sistemas a gás que apagam o fogo sem molhar o acervo.

Onde a proteção falhou

1. No auditório: aparelho sem aterramento e sem disjuntor próprio.

2. No prédio: nenhum chuveiro automático e nenhuma porta corta-fogo.

3. Na rua: hidrantes vizinhos sem pressão na hora do combate.

A falha de água na rua foi a última a aparecer. A Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) afirmou na época que os hidrantes da Quinta funcionavam e que o volume da rede não bastava para um incêndio daquele porte. Os bombeiros relataram que só conseguiram vazão suficiente horas depois, com reforço de caminhões. O hidrante é ligado à rede pública e não tem reservatório próprio: se a pressão da rede cai, ele não entrega água.

A direção do museu vinha relatando havia anos goteiras, fiação exposta e cupins em salas de exposição, e parte das salas estava fechada por falta de conservação. A verba federal de manutenção chegava abaixo do pedido, segundo a UFRJ.

O palácio tinha o projeto contra incêndio assinado e nenhum chuveiro no teto.

 

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III  O Sistema

Quem cuida do prédio

O Museu Nacional pertence a uma universidade federal, ganha verba pelo orçamento do Ministério da Educação e depende do Corpo de Bombeiros estadual para ser certificado. Cada um cuida de uma parte, e nenhum responde sozinho pela segurança do prédio inteiro. Depois do incêndio, o governo federal criou por medida provisória a Agência Brasileira de Museus, que o Congresso deixou caducar, e a reconstrução seguiu num acordo entre UFRJ, Unesco e empresas privadas, o projeto Museu Nacional Vive, com a fachada restaurada entregue em setembro de 2022, no bicentenário da Independência. A UFRJ anunciou a reabertura do interior por etapas.

O modelo que deixou o palácio sem chuveiro continua valendo para outros museus federais. Quem tem a guarda do acervo nem sempre tem a verba, e quem tem a verba não responde pela vistoria. O contrato do BNDES mostra o tamanho do atraso: a solução estava escrita e financiada, e chegaria depois do fogo. Nas semanas seguintes ao incêndio, a imprensa encontrou outros museus públicos funcionando sem o certificado dos bombeiros. Em julho de 2021, um galpão da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, também sob guarda federal, pegou fogo e perdeu parte do acervo de filmes.

Duas saídas ficam na mesa do país. Exigir de todo museu público o certificado dos bombeiros antes de abrir as portas, mesmo que a regra feche salas por anos até a obra sair, ou manter os museus abertos e criar uma verba federal carimbada, só para prevenção de incêndio, liberada sem passar pelo orçamento comum da universidade.

 
 
Quiz da edição

Segundo o laudo da Polícia Federal, em qual ponto do palácio o incêndio do Museu Nacional começou?

ANa biblioteca central, no Horto Botânico
BNo salão das múmias egípcias
CNo auditório Roquette-Pinto, no térreo do palácio
DNa sala das coleções de entomologia

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