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A perícia da Polícia Federal localizou o começo do incêndio no auditório Roquette-Pinto, no térreo do palácio. Ali funcionavam três aparelhos de ar-condicionado. Segundo o laudo divulgado em 2019, um deles aqueceu e deu início ao fogo, num ponto onde a instalação elétrica não seguia o que o fabricante pedia. O laudo listou as falhas de instalação: aparelhos sem aterramento (o fio que desvia para o chão a corrente que escapa) e sem disjuntor próprio para cada um, a peça que corta a energia quando o consumo passa do limite. Com o disjuntor coletivo, a sobrecarga de um aparelho não desligava o circuito a tempo. Do auditório, o fogo subiu pelas estruturas de madeira, pelos forros e pelas escadas de um prédio erguido no século 19 e adaptado por partes ao longo de dois séculos. O palácio guardava material inflamável em quase toda sala: papel de arquivo, coleções conservadas em álcool, peças de madeira e tecido. Os peritos não encontraram sinal de incêndio provocado. A conclusão técnica foi de fogo acidental, de origem elétrica. O horário ajudou as chamas. Num domingo à noite, com o museu fechado, havia só a equipe de vigilância no prédio. Quando o Corpo de Bombeiros foi chamado, o auditório já estava tomado e o fogo tinha alcançado o primeiro andar. O que se perdeu foi medido aos poucos. A UFRJ estima que a maior parte do acervo foi destruída. Das coleções de entomologia (o estudo dos insetos) e de aracnídeos, quase nada sobrou. O meteorito Bendegó saiu intacto. Em outubro de 2018, a equipe de resgate anunciou ter achado nos escombros cerca de 80% dos fragmentos do crânio de Luzia, que vinham sendo remontados. Foram ao chão também o trono do rei Adandozan, do Daomé, enviado a Dom João VI no começo do século 19, os afrescos de Pompeia trazidos pela imperatriz Teresa Cristina e boa parte dos registros de antropologia. A biblioteca central, num prédio separado no Horto Botânico, escapou, assim como coleções guardadas em anexos. A conservação do palácio, inclusive da rede elétrica e dos aparelhos de ar, cabia à UFRJ, que contratava serviços de manutenção por licitação. A conclusão técnica divulgada apontou a causa do fogo sem atribuir culpa nominal a pessoa ou empresa, e a relação de quem instalou cada aparelho não foi tornada pública. Onde o caso está hoje Na esfera penal, a Polícia Federal abriu inquérito para apurar crime de incêndio culposo, aquele causado por descuido, sem intenção. Em julho de 2020, a PF concluiu o inquérito sem responsabilizar ninguém e descartou ação criminosa e omissão dos gestores. Na esfera civil, o Ministério Público Federal já acompanhava, antes do fogo, as condições de segurança do prédio, e não foi divulgada condenação com valor fixado por causa da perda. Na administrativa, não foi divulgada punição a dirigente da UFRJ ou do museu. Na trabalhista, não houve ação ligada ao caso, porque ninguém se feriu. Quem responde pelo quê, e onde: • UFRJ: gestora, sem punição divulgada • Gestores do museu: omissão descartada pela PF • Manutenção elétrica: sem acusação divulgada • Concessionária de água: sem ação divulgada • União: financia a reconstrução Um aparelho mal ligado num auditório bastou para levar dois séculos de coleção.
| II A Falha O palácio sem chuveirosUm prédio com aquele acervo precisaria de chuveiros automáticos, os sprinklers (bicos no teto que soltam água sozinhos quando a temperatura sobe), de portas corta-fogo entre as alas e de alarme ligado a uma central. O palácio não tinha os chuveiros nem as portas. O fogo correu de sala em sala sem barreira. Sem chuveiro, o combate depende de quem chega de fora. Do primeiro aviso até a chegada do caminhão passam minutos, e num prédio de madeira e papel esses minutos decidem quantas salas se perdem. A norma trata o chuveiro como a primeira defesa, e o hidrante da rua como a segunda. No Rio de Janeiro, quem certifica que um prédio pode receber público é o Corpo de Bombeiros, pelo Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico do estado. O museu funcionava sem projeto de prevenção aprovado e sem o certificado dos bombeiros para aquela ocupação, segundo informaram a UFRJ e a própria corporação depois do incêndio. O projeto existia no papel. O contrato assinado com o BNDES em junho de 2018 previa R$ 21,7 milhões para o restauro, e uma das etapas era justamente o sistema contra incêndio. O dinheiro não tinha sido liberado quando o fogo começou, três meses depois da assinatura. Prédio tombado tem regra própria. O Paço de São Cristóvão é protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e obra que mexa em teto, piso ou parede precisa da aprovação do instituto. Passar tubulação de chuveiros num forro do século 19 exige projeto específico, mais caro e mais lento. Museus europeus instalados em palácios antigos usam tubos embutidos e, nas salas de papel, sistemas a gás que apagam o fogo sem molhar o acervo. Onde a proteção falhou 1. No auditório: aparelho sem aterramento e sem disjuntor próprio. 2. No prédio: nenhum chuveiro automático e nenhuma porta corta-fogo. 3. Na rua: hidrantes vizinhos sem pressão na hora do combate. A falha de água na rua foi a última a aparecer. A Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) afirmou na época que os hidrantes da Quinta funcionavam e que o volume da rede não bastava para um incêndio daquele porte. Os bombeiros relataram que só conseguiram vazão suficiente horas depois, com reforço de caminhões. O hidrante é ligado à rede pública e não tem reservatório próprio: se a pressão da rede cai, ele não entrega água. A direção do museu vinha relatando havia anos goteiras, fiação exposta e cupins em salas de exposição, e parte das salas estava fechada por falta de conservação. A verba federal de manutenção chegava abaixo do pedido, segundo a UFRJ. O palácio tinha o projeto contra incêndio assinado e nenhum chuveiro no teto. |
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