Na Muzema, a construção seguia um roteiro conhecido da polícia. O grupo ocupava ou loteava um terreno, muitas vezes em área de proteção ambiental, levantava a estrutura com mão de obra própria e vendia os apartamentos antes do acabamento. O comprador recebia um contrato de gaveta, documento particular sem registro em cartório, e nenhum habite-se, a licença municipal que libera o imóvel para moradia.
Sem licença, não havia projeto estrutural aprovado nem engenheiro responsável conhecido pela prefeitura. O cálculo de fundação, o tipo de concreto e o número de andares ficavam a cargo de quem construía. Prédios de quatro, cinco ou seis andares subiam sobre base pensada para casas térreas, em terreno úmido próximo de rio e de encosta.
O preço atraía. Um apartamento na Muzema custava uma fração de um imóvel regular na vizinha Barra da Tijuca, e a venda aceitava parcelas sem banco nem análise de crédito. Famílias de trabalhadores da região, porteiros, cozinheiras e motoristas, compraram ali a primeira casa própria.
A venda não encerrava a relação. Os moradores pagavam ao grupo taxas mensais de água, gás e internet, cobradas como condomínio. Quem atrasava recebia visita, e quem reclamava de rachadura não tinha a quem recorrer, porque o contrato não valia em cartório e o vendedor era quem mandava na rua.
A chuva entrou na investigação como agravante. Nos dias 8 e 9 de abril de 2019, um temporal alagou ruas e derrubou encostas em vários bairros do Rio, e o solo da Muzema ficou encharcado três dias antes da queda. A água pesou sobre uma fundação que já não tinha margem para receber esse peso.
Na manhã do dia 12, um dos prédios cedeu primeiro e caiu sobre o vizinho. Quem estava nos andares de baixo teve menos chance. O resgate durou dias porque cada laje precisava ser escorada antes de a equipe avançar, para que o resto da estrutura não desabasse sobre os bombeiros.
Depois do desabamento, a Delegacia de Homicídios da Capital assumiu a investigação. O inquérito tratou a queda como resultado de obra feita sem técnica e sem licença por quem sabia do risco. A chuva ficou fora da lista de causas.
Onde o caso está hoje
Na esfera penal, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou em 2019 os apontados como construtores e vendedores por homicídio com dolo eventual (quando o autor não quer a morte, mas assume o risco de causá-la), uma acusação para cada uma das 24 vítimas. Pela tese, o caso vai ao Tribunal do Júri. Até o fechamento desta edição, não foi divulgada sentença.
Na esfera civil, famílias de vítimas e sobreviventes movem ações de indenização, e o desfecho dessas ações não foi divulgado. Na esfera administrativa, a prefeitura demoliu outros prédios irregulares da região nos anos seguintes. Nenhum servidor municipal foi denunciado, e a edição não localizou processo disciplinar divulgado contra fiscal ou gestor.
Quem responde pelo quê, e onde:
• Construtores: denunciados em 2019
• Vendedores: denunciados em 2019
• Milícia local: apontada pela polícia
• Prefeitura do Rio: nenhuma acusação
• Fiscais municipais: nenhuma acusação
Vinte e quatro pessoas morreram em prédios embargados no papel, e a acusação parou em quem construiu.
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