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Maceió afundou sobre 35 minas de sal

Maceió · Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol · desde 2018

Rua vazia de bairro abandonado, casas rachadas e asfalto afundado ao entardecer

Rua esvaziada no bairro do Pinheiro

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RESUMO PRELIMINAR

Cinco bairros de Maceió afundaram sobre as cavernas abertas pela extração de sal-gema da Braskem; cerca de 60 mil pessoas deixaram suas casas desde 2018, e ninguém foi julgado na esfera penal.

1976: a Salgema Indústrias Químicas começa a extrair sal-gema do subsolo de Maceió, numa faixa de terra entre a Lagoa Mundaú e os bairros de Pinheiro, Mutange e Bebedouro. O sal vira matéria-prima de cloro e soda numa fábrica à beira-mar. Anos 2000: a operação passa a pertencer à Braskem, petroquímica controlada pela Odebrecht, hoje Novonor, com a Petrobras como sócia.

Fevereiro de 2018: depois de semanas de chuva forte, rachaduras aparecem no asfalto e nas paredes de casas do Pinheiro. Moradores relatam portas emperradas e fendas atravessando salas inteiras.

3 de março de 2018: um tremor de magnitude 2,4 sacode o bairro. Não é região de terremoto. A prefeitura pede ajuda ao governo federal, e técnicos do Serviço Geológico do Brasil, a CPRM, começam a medir o chão com radar, sondagens e sensores.

Maio de 2019: a CPRM entrega o relatório. O documento liga o afundamento às cavernas abertas pela mineração de sal sob os bairros. No mesmo mês, a Braskem suspende a extração em Maceió.

Dezembro de 2019 em diante: a Defesa Civil redesenha o mapa de risco a cada revisão, e a mancha cresce. Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol são esvaziados. Cerca de 14 mil imóveis ficam vazios, e cerca de 60 mil pessoas deixam casas, escolas, igrejas e pequenos comércios.

29 de novembro de 2023: a prefeitura decreta emergência. A cavidade da mina 18, no Mutange, ameaça ceder, e a Defesa Civil isola a área à beira da lagoa.

10 de dezembro de 2023: o teto da mina 18 rompe sob a Lagoa Mundaú. A água invade o buraco, e a cidade acompanha por imagens de drone a terra descendo dia após dia, centímetro por centímetro.

Outubro de 2026: a edição desce às cavernas para mostrar como o sal saiu do chão, segue o alarme tocado tarde demais e termina no modelo de fiscalização onde a mineradora mede o próprio risco.

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I  O Caso

Trinta e cinco cavernas sob a cidade

A mineração de sal-gema em Maceió usava o método de dissolução. A empresa perfurava um poço até a camada de sal, a cerca de mil metros de profundidade, injetava água doce e bombeava de volta a salmoura, a água carregada de sal dissolvido. Cada poço deixava para trás uma caverna cheia de líquido, sustentada pela rocha em volta.

Ao longo de quatro décadas, foram abertos 35 poços sob os bairros. O projeto previa cavernas separadas por pilares de rocha intacta, como colunas de um prédio subterrâneo. Com o tempo, várias cresceram além do desenho original. Algumas encostaram umas nas outras, e os pilares entre elas afinaram.

O relatório da CPRM descreveu o efeito em cadeia. Quando o teto de uma caverna perde apoio, blocos se soltam e caem no fundo, e o vazio sobe em direção à superfície. As camadas de cima cedem, e o chão dos bairros acompanha, em alguns pontos mais de dois metros em poucos anos.

O sal não era o único problema. A água doce usada na dissolução continuava agindo nas paredes das cavernas mesmo com os poços fechados, e parte delas ficou sem pressão interna suficiente para segurar o peso das camadas de cima. Depois de 2019, a Braskem passou a preencher cavidades com areia e a monitorar as que não podiam ser preenchidas.

A mina 18 era uma dessas. Em dezembro de 2023, o teto rompeu e a lagoa entrou. A Defesa Civil registrou afundamento acelerado na área nos dias anteriores, e o colapso aconteceu num bairro já esvaziado, sem vítimas.

Os moradores saíram por um programa de compensação financeira montado pela própria empresa, sob acordo com o Ministério Público Federal, o Ministério Público de Alagoas e as Defensorias. A Braskem pagou indenização por imóvel e por dano moral e, em troca, ficou com a posse das áreas desocupadas.

Onde o caso está hoje

Na esfera penal, a Polícia Federal conduz inquérito para apurar crimes ambientais e de risco à vida dos moradores, e a Justiça Federal recebeu a denúncia em junho de 2026. Em 2024, a CPI da Braskem no Senado aprovou relatório final com recomendação de indiciamento da Braskem e de executivos da empresa e pedido de aprofundar a apuração sobre agentes de órgãos de fiscalização.

Na esfera civil, valem os acordos com os Ministérios Públicos e as Defensorias, e um acordo de 2023 com a prefeitura de Maceió, de R$ 1,7 bilhão. Ações de moradores contestando valores seguem nos tribunais. Na administrativa, a Agência Nacional de Mineração mantém a extração suspensa.

Quem responde pelo quê, e onde:

• Braskem: acordos civis, ré em ação penal

• Executivos: indiciamento recomendado pela CPI

• Agência Nacional de Mineração: fiscalização questionada

• Instituto do Meio Ambiente de Alagoas: licenças questionadas

• Prefeitura de Maceió: indenizada em R$ 1,7 bilhão

Cinco bairros afundaram sobre cavernas abertas para tirar sal, e o processo penal só chegou ao juiz em 2026.

 
 

II  A Falha

O alarme tocou em 2018

A primeira rachadura não foi o primeiro sinal. Moradores do Pinheiro contam, em depoimentos à CPI e à imprensa, histórias de pisos cedendo e paredes trincando anos antes de 2018. Os relatos chegavam à Defesa Civil como casos isolados de casa velha ou obra mal feita, e cada um era tratado como problema do dono do imóvel.

O controle da mina dependia de dois órgãos. A licença ambiental cabia ao Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, o IMA. A fiscalização da lavra, a retirada do minério, cabia ao antigo Departamento Nacional de Produção Mineral, hoje Agência Nacional de Mineração. Nenhum dos dois media as cavernas por conta própria.

O tamanho de uma caverna de sal se mede por sonar, um aparelho descido pelo poço que mapeia as paredes pelo eco. Os levantamentos eram feitos pela empresa e entregues aos órgãos. Segundo a CPI, várias cavernas ficaram anos sem sonar atualizado, e algumas já estavam fora dos limites previstos no projeto quando foram medidas de novo.

A cidade cresceu por cima. Os poços foram abertos numa área ocupada por bairros residenciais desde antes da mineração, e a licença nunca condicionou a extração a uma distância mínima das casas. Em muitos países, cavernas de sal ficam em áreas rurais ou sob controle de uma faixa de segurança sem moradia.

A medição por satélite, a interferometria de radar, foi o que fechou o quadro em 2019. A técnica compara imagens de anos diferentes e mostra quantos centímetros o chão desceu em cada ponto. O mapa da CPRM desenhou uma bacia de afundamento com o centro sobre os poços, e não sobre as casas mais antigas.

Onde o controle falhou

1. Na licença: extração autorizada sob bairros habitados, sem faixa de segurança.

2. Na fiscalização: sonar das cavernas feito pela empresa e conferido no papel.

3. No alerta: rachaduras tratadas como problema de cada casa, uma por uma.

A Braskem sustenta ter operado dentro das licenças concedidas e ter assumido a reparação de forma voluntária. Os órgãos de controle alegam falta de fiscais e de equipamento próprio para vistoriar cavernas a mil metros de profundidade.

O chão dava sinais havia anos, e ninguém de fora da empresa media as cavernas.

 

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III  O Sistema

Quem mede o próprio buraco

A mineração no Brasil segue um modelo de declaração. A empresa informa o quanto extrai, o tamanho das cavidades e o estado da segurança, e o órgão público confere os documentos. Vistoria em campo depende de fiscal disponível, e a Agência Nacional de Mineração trabalha com um quadro pequeno para milhares de minas no país inteiro.

O modelo apareceu também em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, em 2019, com barragens de rejeito de minério. Nos dois casos, os laudos de estabilidade eram contratados pela própria mineradora. Depois de Brumadinho, a lei passou a proibir barragens de rejeito construídas pelo método mais barato. As cavernas de sal ficaram fora desse pacote.

Há ainda a questão do território. Pelo acordo de compensação, as áreas desocupadas passaram à Braskem. Os bairros esvaziados viraram propriedade da empresa cuja mineração os esvaziou. A prefeitura e moradores contestam o destino dessas terras e pedem garantia de uso público no futuro.

Cerca de 60 mil pessoas foram espalhadas pela cidade. Escolas fecharam, linhas de ônibus foram desviadas, e o trecho ferroviário entre o centro e o subúrbio passou a contornar a área. Igrejas centenárias ficaram dentro da mancha de risco. A indenização pagou imóveis; a vizinhança não tem tabela.

A Lagoa Mundaú também entrou na conta. Pescadores e marisqueiras do Mutange e do Bom Parto viviam da coleta do sururu, o pequeno marisco símbolo da culinária de Maceió. Com a área isolada e a margem afundando, perderam o ponto de trabalho junto com a casa. Parte deles entrou no programa de compensação por atividade econômica, com valores calculados caso a caso e contestados por associações de moradores.

A reparação foi negociada fora de um processo penal. Os acordos civis definiram quanto a empresa paga e a quem, sem decidir se houve crime. Desde junho de 2026, com a denúncia recebida, a pergunta sobre responsabilidade individual está nos tribunais.

Duas saídas ficam na mesa do país. Obrigar toda mineradora a pagar um monitoramento independente, contratado e publicado pelo órgão público, mesmo que o custo da extração suba e algumas minas fechem, ou manter a declaração pela empresa e ampliar o quadro de fiscais da agência federal com verba própria, conferindo em campo o que hoje se confere no papel.

 
 
Quiz da edição

Quantos poços de extração de sal-gema foram abertos sob os bairros de Maceió ao longo de quatro décadas de operação da Salgema e depois da Braskem?

A15 poços
B60 poços
C35 poços
D50 poços

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