A mineração de sal-gema em Maceió usava o método de dissolução. A empresa perfurava um poço até a camada de sal, a cerca de mil metros de profundidade, injetava água doce e bombeava de volta a salmoura, a água carregada de sal dissolvido. Cada poço deixava para trás uma caverna cheia de líquido, sustentada pela rocha em volta.
Ao longo de quatro décadas, foram abertos 35 poços sob os bairros. O projeto previa cavernas separadas por pilares de rocha intacta, como colunas de um prédio subterrâneo. Com o tempo, várias cresceram além do desenho original. Algumas encostaram umas nas outras, e os pilares entre elas afinaram.
O relatório da CPRM descreveu o efeito em cadeia. Quando o teto de uma caverna perde apoio, blocos se soltam e caem no fundo, e o vazio sobe em direção à superfície. As camadas de cima cedem, e o chão dos bairros acompanha, em alguns pontos mais de dois metros em poucos anos.
O sal não era o único problema. A água doce usada na dissolução continuava agindo nas paredes das cavernas mesmo com os poços fechados, e parte delas ficou sem pressão interna suficiente para segurar o peso das camadas de cima. Depois de 2019, a Braskem passou a preencher cavidades com areia e a monitorar as que não podiam ser preenchidas.
A mina 18 era uma dessas. Em dezembro de 2023, o teto rompeu e a lagoa entrou. A Defesa Civil registrou afundamento acelerado na área nos dias anteriores, e o colapso aconteceu num bairro já esvaziado, sem vítimas.
Os moradores saíram por um programa de compensação financeira montado pela própria empresa, sob acordo com o Ministério Público Federal, o Ministério Público de Alagoas e as Defensorias. A Braskem pagou indenização por imóvel e por dano moral e, em troca, ficou com a posse das áreas desocupadas.
Onde o caso está hoje
Na esfera penal, a Polícia Federal conduz inquérito para apurar crimes ambientais e de risco à vida dos moradores, e a Justiça Federal recebeu a denúncia em junho de 2026. Em 2024, a CPI da Braskem no Senado aprovou relatório final com recomendação de indiciamento da Braskem e de executivos da empresa e pedido de aprofundar a apuração sobre agentes de órgãos de fiscalização.
Na esfera civil, valem os acordos com os Ministérios Públicos e as Defensorias, e um acordo de 2023 com a prefeitura de Maceió, de R$ 1,7 bilhão. Ações de moradores contestando valores seguem nos tribunais. Na administrativa, a Agência Nacional de Mineração mantém a extração suspensa.
Quem responde pelo quê, e onde:
• Braskem: acordos civis, ré em ação penal
• Executivos: indiciamento recomendado pela CPI
• Agência Nacional de Mineração: fiscalização questionada
• Instituto do Meio Ambiente de Alagoas: licenças questionadas
• Prefeitura de Maceió: indenizada em R$ 1,7 bilhão
Cinco bairros afundaram sobre cavernas abertas para tirar sal, e o processo penal só chegou ao juiz em 2026.
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