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Gran Circus: a lista que nunca fechou

Niterói · 1961 a 1965

Estrutura de picadeiro queimada e a bancada com o livro de sepultamento

A lona, o galpão e a lista sem fim

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RESUMO PRELIMINAR

O número oficial saiu de uma soma de guias de sepultamento feita às pressas, e não de um censo de quem entrou na lona. O que faltou foi o confronto entre a bilheteria, os livros dos cemitérios e os laudos de identificação, enquanto os três registros ainda existiam.

17 de dezembro de 1961, meio da tarde: a matinê de domingo do Gran Circus Norte-Americano começa no Barreto, bairro operário de Niterói, com a lona cheia de famílias. 17 de dezembro de 1961, por volta das dezesseis horas e vinte: o tecido pega fogo num ponto alto e o incêndio percorre a cobertura inteira em poucos minutos. 17 de dezembro de 1961, fim da tarde: hospitais da cidade e do Rio de Janeiro recebem feridos em número maior do que o total de leitos disponíveis. Noite de 17 para 18 de dezembro de 1961: vítimas são levadas para galpões e escolas improvisados como câmara ardente, onde famílias passam a procurar parentes a olho. 18 e 19 de dezembro de 1961: começam os sepultamentos em vala no cemitério do Maruí, antes de a identificação estar concluída.

Uma apuração de tragédia coletiva depende de três registros que existem por escrito e não dependem da memória de nenhum sobrevivente: a bilheteria, o livro do cemitério e o laudo.

A bilheteria é a contagem de quem entrou. Talão de ingresso vendido, cortesia distribuída, lotação máxima autorizada pela prefeitura e estimativa de público do próprio espetáculo. Ela estabelece o universo de pessoas que estavam embaixo daquela cobertura.

O livro do cemitério é o registro de saída. Guia de sepultamento numerada, nome quando havia nome, quadra e cova de cada corpo, data e hora do enterro. Ele transforma um total divulgado na imprensa em uma soma verificável, linha por linha.

O laudo liga os dois. Exame de cada vítima, descrição, pertences, impressão digital quando a pele permitia, arcada dentária e o número de registro que acompanha o corpo do galpão até a cova. Sem ele, bilheteria e livro do cemitério ficam sendo duas listas que ninguém cruza.

Este dossiê trata de uma lona de circo que queimou em poucos minutos numa tarde de domingo em Niterói, de uma identificação feita em galpão sem ficha padronizada e de uma lista oficial de vítimas que, mais de seis décadas depois, ainda aparece com diferença superior a cem nomes entre uma fonte e outra.

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I  O Caso

I, Seis minutos de lona e um número provisório

O Gran Circus Norte-Americano era uma companhia itinerante de porte médio que armou sua lona num terreno do Barreto, zona industrial de Niterói, em dezembro de 1961. A temporada atraía público de bairro, com sessões baratas de domingo à tarde e a presença de Jogo, o elefante que virava atração de cartaz.

A cobertura era de nylon tratado, material que havia substituído a lona de algodão em boa parte dos circos da época por ser mais leve e mais barato de transportar. Em contato com chama e combustível, o nylon derrete e escorre em vez de apenas queimar, e o fogo corre pela superfície em velocidade que nenhuma saída de lona acompanha.

A sessão da tarde de 17 de dezembro de 1961 reuniu uma plateia estimada em mais de dois mil espectadores, a maioria crianças e mães do próprio bairro. As arquibancadas de madeira ficavam em anel, com poucas passagens de saída, e a estrutura tinha um único acesso principal de público.

O fogo começou na cobertura. Em poucos minutos a lona inteira desabou sobre as arquibancadas, e o material derretido caiu sobre quem ainda tentava alcançar a saída. As passagens estreitas entupiram, e boa parte das vítimas foi atingida dentro do próprio setor em que estava sentada.

O atendimento improvisou desde a primeira hora. Carros particulares, caminhões e ônibus levaram feridos para hospitais de Niterói e, depois, para o Rio de Janeiro, em travessia de barca, porque a ponte ainda não existia. Sem central de regulação, cada veículo decidia o destino no caminho.

A identificação foi montada em galpões, pavilhões e salas de escola cedidos na mesma noite. Famílias andavam entre as macas procurando um rosto, uma roupa, um sapato, um brinquedo. Não havia ficha única numerada que acompanhasse cada vítima da entrada do galpão até a cova.

Nos dias seguintes, os sepultamentos começaram antes do fim do trabalho de identificação, em valas abertas no cemitério do Maruí. Parte dos corpos foi enterrada sem nome, com registro genérico, e um mesmo corpo podia aparecer em mais de um controle paralelo, o da polícia, o do hospital e o do cemitério.

A investigação criminal andou rápido e chegou a ex-funcionários da companhia, demitidos pouco antes, que teriam espalhado combustível e ateado fogo na lona por vingança contra a direção do circo. Adilson Marcelino Alves, conhecido como Dequinha, confessou a participação, e o grupo foi julgado e condenado nos anos seguintes.

A contagem, essa, nunca alcançou a mesma firmeza. O total oficial mais citado ficou em torno de quinhentas vítimas, com números divulgados por autoridades estaduais que variaram ao longo das primeiras semanas, e levantamentos posteriores de imprensa e de pesquisadores locais chegaram a cifras acima disso, com diferença superior a cem nomes em relação à lista oficial.

Houve ainda uma segunda contagem jamais fechada: feridos que não resistiram semanas depois, no hospital, e que entraram ou não na lista dependendo de quem somava.

 
 

II  A Falha

II, A contagem que começou no cemitério

A lacuna deste caso costuma ser resumida como fogo que destruiu tudo. A frase não se sustenta. A autoria foi estabelecida, houve confissão e houve condenação: a coluna da prova que desabou foi outra, a contagem e a identificação das vítimas.

A lacuna central é esta: o número oficial foi construído de trás para frente, somando guias de sepultamento emitidas às pressas, e não de frente para trás, partindo de quem entrou na lona. Uma soma de enterros conta covas. Ela não conta pessoas.

O primeiro conjunto de prova era a bilheteria. Talões de ingresso vendidos naquela sessão, cortesias, lotação autorizada pela prefeitura de Niterói para aquele terreno e o registro de público das sessões anteriores da temporada. Papel de escritório, guardado fora da lona, que estabeleceria o teto do universo de vítimas.

O segundo conjunto era a identificação com ficha única. Um número por vítima, atribuído na entrada do galpão, com descrição, pertences, dado odontológico e impressão digital quando possível, acompanhando o corpo até a quadra e a cova. Sem esse número, o mesmo corpo podia ser contado duas vezes em dois controles, ou nenhuma vez.

O terceiro conjunto era o cruzamento com os vivos. Lista de internados por hospital, lista de altas, lista de desaparecidos registrados pelas famílias nos dias seguintes e confronto dessas três com a lista de sepultados. O nome que aparece como desaparecido e não aparece em lugar nenhum é exatamente a diferença que ninguém mediu.

Como hipótese, e apenas como hipótese, os três conjuntos juntos separariam dois cenários que o total divulgado não separa. Uma tragédia de cerca de quinhentas vítimas com identificação incompleta deixa um tipo de rastro documental. Uma tragédia maior, com parte das vítimas enterrada sem entrar em nenhuma lista e com óbitos tardios fora da conta, deixa outro, com dezenas de registros de desaparecimento sem correspondência em cova nomeada.

A hipótese contrária precisa ser dita. Uma cidade que recebe centenas de feridos graves em poucas horas, sem leito de queimado suficiente, sem ficha padronizada e com risco sanitário em dezembro, decide enterrar antes de terminar de identificar porque a alternativa é pior naquele momento. Preservar a contagem competia com a urgência de cuidar de quem ainda estava vivo.

Não faltou autoria no Gran Circus. Faltou a prova que fechava a conta: os talões de bilheteria da sessão de domingo, a ficha numerada de identificação acompanhando cada vítima do galpão até a cova, os livros dos cemitérios confrontados com as listas de internados e com os registros de desaparecimento feitos pelas famílias. A condenação dos responsáveis pelo fogo encerrou a pergunta de quem ateou. A pergunta de quantos ficou aberta, e o material que a responderia envelheceu em arquivo.

 
 

III  O Sistema

III, Tragédia em massa sem censo oficial

O primeiro gargalo é a ausência de um censo obrigatório de vítimas em evento de grande número. Quando não existe regra que determine contagem única, numerada e auditável, o total vira a soma do que cada órgão anotou por conta própria, e cada órgão anota com critério diferente.

O segundo é a identificação sem ficha padronizada. Enquanto o país não tiver um formulário único de vítima em desastre, com número atribuído na chegada e vinculação obrigatória entre laudo, guia de sepultamento e cova, toda tragédia com dezenas de vítimas vai repetir a contagem dupla e a vítima sem nome.

O terceiro é a fiscalização de lotação e de material de cobertura tratada como rotina de papel. A autorização para armar lona em terreno urbano passava por vistoria administrativa que não media tempo de evacuação, número de saídas por setor nem comportamento do material sob chama. Uma vistoria que não mede nada disso certifica apenas que a taxa foi paga.

O quarto é a falta de consolidação posterior. Nenhum órgão ficou com a obrigação de, meses depois, reabrir os registros e fechar a lista definitiva, cruzando óbito tardio em hospital, desaparecido sem cova e cova sem nome. Sem essa atribuição, a lista provisória da primeira semana virou a lista permanente.

O quinto é a ausência de contabilidade pública sobre a própria contagem. Não existe levantamento nacional que informe, nos desastres brasileiros com grande número de vítimas, quantos tiveram lista nominal final publicada e quantos ficaram em divergência. Sem esse número, o sistema não mede a própria falha.

Um caso não fica aberto porque a lona virou cinza em poucos minutos. Ele fica aberto quando existiam talões de bilheteria daquela sessão, livros de cemitério com guias numeradas, prontuários de hospital e dezenas de registros de desaparecimento feitos pelas próprias famílias, e nenhuma regra obrigando alguém a sentar e cruzar os quatro enquanto todos ainda estavam em pasta.

Não faltou condenação no Gran Circus. Faltou a regra que obrigasse censo nominal único de vítimas em desastre de massa, com ficha numerada desde a chegada ao local de identificação, vinculação obrigatória entre laudo, guia de sepultamento e cova, e prazo para publicar a lista final depois do cruzamento com internados, altas e desaparecidos.

Com essas peças no lugar, a contagem de 1961 teria chegado a um nome por linha, e não a um total em disputa.

"Cerca de quinhentas vítimas com identificação incompleta, ou um total bem maior com parte das pessoas enterrada sem entrar em lista nenhuma? Os talões da bilheteria e os livros do Maruí responderiam, e ninguém cruzou os dois enquanto dava tempo."

 

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