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Em 1992, içar destroço submerso era decisão de custo. Operação de resgate no mar exige navio de apoio, sonar de varredura lateral, mergulho profundo e semanas de embarcação parada na área.
A busca pelo corpo e a busca pelo destroço concorrem entre si desde a primeira hora. A primeira é urgente e pública, a segunda é técnica e sempre pode esperar.
Quando a primeira fracassa, a segunda costuma ser encerrada junto. O país acompanhou 22 dias de rastreamento sem resultado, e o assunto saiu do noticiário com o fim das buscas.
O relógio trabalha contra as duas. Corrente, maré e fundo de lama deslocam e enterram peça leve, e cada semana perdida multiplica a área a varrer.
A tecnologia já existia. Sonar de varredura lateral e veículo submarino operado por cabo eram ferramenta corrente da indústria de petróleo brasileira naquela década.
Faltou acionamento. O equipamento de busca submarina estava na Marinha e nas empresas de óleo, e não havia protocolo que empurrasse esse recurso para dentro de uma investigação civil de acidente.
O contraste com o Atlântico dá a medida. A caçada aos gravadores do voo Air France 447 durou quase dois anos, passou por quatro fases de varredura com sonar e robô e terminou com as caixas na mão dos peritos.
A diferença ali não foi só de tecnologia. Foi a decisão de continuar procurando.
Hoje o procedimento está escrito de outro jeito. A investigação de acidente aeronáutico trabalha com a premissa de recolher o máximo de destroço possível, e a análise do conjunto é etapa prevista, não etapa opcional.
A asa rotativa também mudou de exigência. Gravadores leves e sistemas de monitoramento de voo entraram na regra de categorias que antes voavam sem registro nenhum.
Registro é a diferença entre reconstruir e supor. Com parâmetros gravados, o mesmo acidente vira uma linha do tempo de segundos, com potência de motor e posição de comando lado a lado.
A confirmação de 2002 mostra que o material estava ao alcance. Um pescador puxou fuselagem a 500 metros de uma ponta conhecida, em profundidade que rede de pesca artesanal atinge.
Se pedaço de fuselagem estava ali em 2002, o conjunto principal esteve alcançável em 1992, quando as marcas de impacto ainda estavam frescas e a corrosão não tinha começado.
Cada década que passou transformou o resto em sucata. Alumínio em água salgada perde superfície, e é na superfície que moram as marcas de rotação e de impacto.
O episódio de 2019 fecha o quadro. Peça nova aparece, fragmento ósseo aparece, o material entra numa delegacia de cidade pequena e some sem laudo divulgado.
Não existe fio que ligue automaticamente um achado desses ao processo antigo. Sem esse fio, cada aparição de destroço recomeça do zero e termina em gaveta.
O gargalo não foi a falta de aeronave para examinar, foi encerrar a investigação com a aeronave ainda no fundo do mar. Houve hipótese, houve boletim do tempo, houve peça boiando. Não houve motor na bancada.
Com o conjunto recolhido, a causa seria conclusão de laudo, com marca de rotação medida em milímetros e comando conferido cabo a cabo.
A pergunta não é se houve atentado, porque nada do que veio à tona sustenta essa leitura. É por que um acidente dessa dimensão foi encerrado sem que a aeronave fosse recolhida do fundo.
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