O VLS-1 nasceu em 1979, dentro da Missão Espacial Completa Brasileira, o plano de fazer no país o satélite, o foguete e a base. O foguete ficou com o Instituto de Aeronáutica e Espaço, o IAE, braço do Centro Técnico Aeroespacial do Comando da Aeronáutica. A base escolhida foi Alcântara, perto da linha do Equador, onde a rotação da Terra ajuda o lançamento.
O desenho tinha quatro estágios movidos a propelente sólido, uma massa parecida com borracha que queima por dentro. O primeiro estágio eram quatro motores presos em volta do corpo central. Todos precisavam acender juntos, por comando elétrico, no segundo exato.
2 de novembro de 1997: o primeiro protótipo, o V01, sobe sem um dos quatro motores do primeiro estágio, que não acendeu. O foguete sai da rota e é destruído por comando de segurança pouco mais de um minuto após a decolagem.
11 de dezembro de 1999: o segundo protótipo, o V02, perde o segundo estágio em voo e também é destruído. Nas duas falhas, ninguém se feriu. O V03, com dois pequenos satélites a bordo, seria a terceira tentativa.
As 21 vítimas do V03 eram servidores civis do IAE, a maior parte com anos de trabalho em propulsão e integração de foguetes. Com elas foi parte da memória técnica do programa: quem sabia montar o VLS-1 estava na torre naquele dia. Memoriais em São José dos Campos e em Alcântara guardam os 21 nomes.
No V03 o defeito se inverteu: um motor acendeu sem comando, ainda em solo. A comissão do Comando da Aeronáutica entregou o relatório final no início de 2004. A causa mais provável, segundo o documento, foi a ignição intempestiva (fora de hora) de um motor do primeiro estágio, disparada por um fenômeno elétrico que a comissão não conseguiu isolar com certeza.
O relatório listou o entorno do acidente. Muita gente trabalhava na torre ao mesmo tempo, com os motores já carregados. O circuito de ignição não tinha barreira suficiente contra um disparo acidental. E o programa vinha de anos de corte de verba e de perda de pessoal, com equipes reduzidas fazendo o trabalho de campanha inteira.
A plataforma também ficou no chão. A torre derretida precisou ser desmontada, e a reconstrução levou anos, num programa que já andava com pouca verba.
Onde o caso está hoje
Na esfera penal, nenhuma ação foi aberta. Não foi divulgado inquérito policial sobre as 21 mortes nem denúncia do Ministério Público. Homicídio culposo, a morte causada por imprudência, negligência ou imperícia, tem pena máxima de três anos no Código Penal, e crime com essa pena prescreve em oito anos. Desde agosto de 2011, nenhum processo pode mais ser aberto.
Na esfera civil, a Lei 10.821, de 18 de dezembro de 2003, deu pensão especial aos dependentes das vítimas, paga pela União. Os valores de eventuais ações individuais de indenização não foram divulgados. Na administrativa, não foi divulgada punição a nenhum servidor ou oficial. O programa do VLS-1 foi encerrado anos depois, sem novo voo.
Quem responde pelo quê, e onde:
• Comando da Aeronáutica: investigou o próprio caso
• União: pensão especial por lei
• Servidores e oficiais: sem punição divulgada
• Ministério Público: sem denúncia divulgada
• Famílias: pensão pela Lei 10.821/2003
Um motor acendeu sem comando, 21 pessoas morreram, e o único documento do caso é técnico.
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