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A lei de 1988 chegou tarde para os hemofílicos

Brasil · anos 1980

Bolsas de sangue penduradas num suporte de hospital antigo, em luz fria

Bolsas de sangue, Brasil, anos 1980

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RESUMO PRELIMINAR

O teste do HIV existia desde 1985, o banco de sangue pagava o doador e não anotava o nome dele, e três irmãos mineiros receberam o vírus junto com o remédio da hemofilia.

Anos 1970: no Brasil, o hemofílico (quem nasce com um sangue que demora a coagular) trata cada sangramento com plasma ou crioprecipitado (a parte do plasma rica na proteína da coagulação), vindos de bancos de sangue que pagam o doador por bolsa. Três irmãos mineiros vivem desse tratamento: o cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o músico Francisco Mário de Souza, o Chico Mário.

1982: o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos registra os primeiros hemofílicos doentes de aids, sem outro risco conhecido além do remédio feito com sangue alheio.

1985: a agência americana de medicamentos aprova o primeiro teste comercial capaz de achar no sangue o anticorpo do HIV, o vírus da aids. O exame passa a existir para qualquer banco disposto a pagar por ele.

1986: Betinho descobre que carrega o HIV. Henfil e Chico Mário também estão infectados, os três pelo sangue usado no tratamento da hemofilia. No país, a triagem continua a critério de cada banco, e nenhum cadastro guarda o nome de quem doou cada bolsa.

4/1/1988: Henfil morre no Rio, aos 43 anos, de complicações da aids.

25/01/1988: o presidente José Sarney sanciona a Lei 7.649, que obriga o cadastro dos doadores e o exame de cada bolsa coletada para aids, hepatite B, sífilis, doença de Chagas e malária. A lei chega três semanas depois do enterro de Henfil.

Centenas de hemofílicos brasileiros contraíram o vírus nas transfusões daquela década. Como nada obrigava o registro antes da lei, nenhum documento permite dizer hoje de que doador, de que banco e de que lote veio a infecção de cada paciente.

O dossiê segue em três partes: quem foi atingido e em que pé ficou cada esfera do caso; os três anos entre o teste disponível e o teste obrigatório; e quem, no sistema de hoje, guarda o caminho de uma bolsa de sangue.

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I  O Caso

Plasma pago, paciente sem rastro

A resposta de ontem

Para que a fábrica da Backer foi liberada em abril de 2020?

Para produzir álcool em gel. Em 28/4/2020, no começo da pandemia de covid-19, a fábrica da Backer no bairro Olhos d'Água foi liberada para fabricar o produto, segundo o jornal Estado de Minas, enquanto a produção de cerveja seguia interditada pela contaminação.

O caso do sangue contaminado é o nome que ficou para as infecções por HIV de hemofílicos e de outros pacientes transfundidos no Brasil dos anos 1980, antes da Lei 7.649/1988. As vítimas mais conhecidas são os irmãos Souza, mas a maioria era anônima: meninos e homens que dependiam de transfusões repetidas, muitas vezes desde a infância.

O hemofílico grave recebe sangue de muitos doadores ao longo da vida. Um frasco de crioprecipitado juntava o plasma de várias bolsas, e o concentrado de fator VIII (o remédio industrial feito com o plasma de milhares de doadores) vinha em boa parte importado. Bastava um doador infectado no lote para atingir todos os pacientes que usassem aquele frasco.

Os três irmãos Souza tinham nome nacional antes do diagnóstico. Henfil criou os Fradinhos e a Graúna, personagens que zombavam da ditadura nas páginas do Pasquim. Betinho, exilado depois do golpe de 1964, virou verso de canção: o samba O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, gravado por Elis Regina em 1979, pedia a volta do irmão do Henfil. Ele voltou com a anistia daquele ano e retomou o tratamento da hemofilia no país.

A doação paga atraía justamente quem mais precisava do dinheiro, e os bancos privados coletavam em volume. Sem cadastro, o mesmo doador podia vender sangue em mais de um lugar, e nenhum banco sabia quem o outro tinha recusado.

Chico Mário morreu ainda em 1988, também de aids. Betinho transformou o diagnóstico em campanha pública: ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, a Abia, e levou o sangue vendido para o debate da Assembleia Constituinte.

A Constituição promulgada em 5/10/1988 respondeu no artigo 199, parágrafo 4: proibiu todo tipo de comercialização de sangue e de seus derivados. A doação no Brasil passou a ser voluntária e não remunerada.

Outros vírus viajavam nas mesmas bolsas. A hepatite C, identificada só em 1989, também infectou hemofílicos daquela geração, e o exame obrigatório da Lei 7.649 não tinha como procurar um vírus que a ciência ainda não descrevera.

Em que pé o caso está em cada esfera

Na esfera penal, não foi divulgada denúncia nem condenação de dono ou de médico de banco de sangue pelas infecções de hemofílicos nos anos 1980.

Na esfera civil, pacientes e famílias moveram ações individuais de indenização contra a União, estados e hospitais nas décadas seguintes. Não foi divulgado acordo coletivo nem fundo nacional para os hemofílicos infectados.

Na esfera administrativa, a resposta veio em leis: a 7.649/1988 criou o cadastro e o exame, e a Lei 7.670, de 8/9/1988, estendeu aos portadores de aids o auxílio-doença, a aposentadoria e o saque do FGTS.

Na esfera trabalhista, não foi divulgada condenação ligada ao caso.

Quem responde pelo quê:

• Bancos de sangue privados: sem denúncia divulgada.

• União: ações individuais.

• Estados e hospitais: ações individuais.

• Doadores pagos: nunca identificados.

 
 

II  A Falha

Três anos sem exame obrigatório

A falha tem documento e data nas duas pontas. O teste comercial do anticorpo do HIV foi aprovado nos Estados Unidos em março de 1985; no Brasil, o exame só virou obrigação para todo sangue coletado com a Lei 7.649, de 25/01/1988. Nos quase três anos entre as duas datas, cada banco decidia sozinho se testava.

Testar custava. O kit importado encarecia a bolsa, e um banco que pagava o doador e vendia o sangue ao hospital tinha motivo para economizar justamente no exame. Hemocentros estaduais começaram a triar antes da lei em alguns estados, mas não foi divulgado um levantamento nacional de quais bancos testavam e desde quando.

O exame existia; faltava a lei que mandasse fazê-lo e guardar o nome do doador.

A ausência do cadastro pesa tanto quanto a do teste. Uma bolsa sem doador registrado não se rastreia para trás: ninguém consegue chamar de volta quem doou, testar de novo e avisar os outros receptores do mesmo sangue. A infecção descoberta num paciente parava nele, e o doador seguia vendendo sangue em outro banco da mesma cidade.

Essa ausência decide também o processo. Numa ação de indenização, o paciente precisa mostrar o nexo causal (a ligação entre o dano e quem o causou). O hemofílico que recebeu frascos de muitas origens não tem como apontar a bolsa culpada, e o réu se defende dizendo que o vírus pode ter vindo de qualquer lugar.

Na esfera penal o buraco é o mesmo. Crime exige autor individual e conduta provada, e sem registro de doador, de lote e de exame, nenhum promotor tinha como dizer qual banco vendeu o sangue infectado a qual paciente, nem em que mês a bolsa foi coletada.

O concentrado importado acrescentou outra camada. Laboratórios estrangeiros passaram a aquecer o fator VIII para inativar o vírus a partir de 1985, e não foi divulgado até quando lotes sem esse tratamento continuaram chegando aos hemofílicos brasileiros.

O doador pago também ficou fora do alcance. Quem vendia sangue para comprar comida não sabia que carregava o vírus, não tinha endereço anotado em lugar nenhum e não foi procurado por ninguém depois. Não foi divulgado se algum banco do período tentou localizar doadores antigos quando o exame se tornou obrigatório.

Com a lei de 1988, o Brasil passou a anotar o doador e a testar a bolsa. Para quem já estava infectado, a mudança não devolveu nenhum dado: o registro começou a contar da data da lei, e o sangue das transfusões anteriores seguiu sem origem conhecida.

 

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III  O Sistema

Quem guarda o caminho da bolsa

A Lei 10.205, de 21/3/2001, regulamentou o artigo 199 da Constituição e montou o Sistema Nacional de Sangue: doação voluntária, triagem obrigatória e um registro que acompanha cada bolsa do doador ao paciente. A Hemobrás, estatal criada pela Lei 10.972/2004, recebeu a tarefa de produzir no país os derivados do plasma que os hemofílicos dos anos 1980 recebiam importados. O caso mostra que o rastro só serve a quem foi infectado se já estava sendo feito no dia da coleta, e que nenhuma lei posterior recupera o nome de um doador nunca anotado. A proibição de vender sangue, de 1988, atacou o incentivo; o cadastro atacou o esquecimento. As duas medidas chegaram juntas, e as duas chegaram depois das transfusões que infectaram os irmãos Souza.

A hepatite C deixou a mesma lição por outro caminho. Quando o exame dela chegou, nos anos 1990, os bancos com registro puderam chamar de volta doadores e receptores antigos; os pacientes das bolsas anteriores a 1988 não tinham por onde começar. O sistema protege contra o vírus que ainda não tem teste apenas guardando a origem de cada bolsa, para que a busca exista quando o teste chegar. Bolsa sem nome é bolsa que ninguém consegue procurar, nem o médico, nem o juiz, nem a família.

Indenizar por presunção todo hemofílico infectado naquela década, sem exigir a bolsa culpada, ou manter a regra do nexo individual e aceitar que a falta de registro deixa sem réu quem vendeu o sangue. Quem escolhe entre os dois caminhos decide também quanto vale um cadastro que não foi feito.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que ano morreu Herbert de Souza, o Betinho, o irmão de Henfil infectado pelo mesmo tratamento?

 
 
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