23/12/1982: a Lei estadual 638, promulgada pelo presidente da Assembleia Legislativa fluminense, Jorge Leite, declara a Scuderie Detetive Le Cocq de utilidade pública, o título oficial dado a entidade que presta serviço à coletividade, “com sede e foro” (endereço legal) na capital do Rio.
24/10/1984: a Scuderie é oficializada no Espírito Santo com registro civil de pessoa jurídica, a inscrição em cartório que dá à associação existência própria, separada da dos sócios, como entidade filantrópica e sem fins lucrativos. O estatuto põe como finalidade “aperfeiçoar a moral e servir à coletividade”. A sede administrativa fica no bairro Bento Ferreira, em Vitória.
1985: Florianópolis aprova a Lei 2.274 e dá à Scuderie o mesmo título de utilidade pública, com a justificativa de que ela promovia o “aperfeiçoamento moral, intelectual e físico de seus membros”.
Os associados se tratavam por “irmãozinhos”, registra o MPF. Segundo a revista Consultor Jurídico, ao noticiar a sentença em 2004, eram pelo menos 800 no Espírito Santo, entre policiais, advogados, juízes, promotores e políticos.
Outubro de 1993: o investigador Dermeval Gonçalves Pereira, o Russo, leva um tiro na nuca num dos banheiros da sede de Bento Ferreira, durante uma reunião com dezenas de associados, e não sobrevive. A Polícia Civil nunca identificou o autor, segundo reportagem do jornalista Elimar Côrtes publicada em 2018.
1996: o MPF dá entrada na Justiça Federal em Vitória à ação de dissolução da Scuderie, processo 96.0006417-2.
Dezembro de 2000: o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, da Câmara dos Deputados, com 1.198 páginas, indicia, isto é, aponta formalmente como suspeitos, seis delegados e 24 policiais civis capixabas como integrantes do crime organizado.
05/11/2004: o juiz federal Alexandre Miguel, em Vitória, dissolve a pessoa jurídica, suspende na hora as atividades, inclusive a entrada de novos sócios, e proíbe o uso do nome e dos símbolos até em bonés, camisas, chaveiros e adesivos. O MPF registra ainda o sequestro, o bloqueio judicial, de todos os bens.
2006: a 8ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), com o desembargador federal Guilherme Calmon como relator, o juiz que conduz o caso e apresenta o voto, mantém a sentença por unanimidade. A decisão transitou em julgado, isto é, não cabe mais recurso, segundo o MPF.
Onde o caso está hoje
Na esfera penal, a Scuderie nunca foi julgada pelos homicídios atribuídos a ela, e não poderia ser: a lei brasileira só pune penalmente pessoa jurídica em crime ambiental, e por homicídio responde quem atira ou manda atirar. Nenhuma condenação criminal que ligue o grupo aos 30 assassinatos de políticos apontados pelo MPF foi divulgada, e o resultado dos indiciamentos da CPI não saiu em balanço público.
Na civil, a dissolução está encerrada, com os bens sequestrados e o nome e a caveira proibidos sob pena de multa. Nenhuma indenização às famílias das vítimas atribuídas ao grupo foi divulgada. Na trabalhista, não houve processo divulgado.
Na administrativa, a Câmara de Florianópolis revogou a Lei 2.274 em julho de 2025, com 12 votos numa casa de 23 vereadores, 40 anos depois do título. A Lei 638, do Rio, aparece como “Em Vigor” no sistema de legislação da Assembleia fluminense, consultado em novembro de 2026: a sentença de 2004 alcançou a entidade registrada no Espírito Santo.
Quem respondeu pelo quê, e onde:
• Scuderie no ES: dissolvida, 2004
• Dissolução: mantida no TRF-2, 2006
• Nome e caveira: uso proibido
• Seis delegados e 24 policiais: indiciados pela CPI, 2000
• Tiro na sede, 1993: autor não identificado
• Título em Florianópolis: revogado, 2025
• Título no Rio: em vigor
A caveira perdeu o registro no cartório de Vitória e manteve o título de utilidade pública no Rio.
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