A Guerrilha do Araguaia foi o maior movimento armado rural contra a ditadura brasileira. O PCdoB distribuiu seus militantes em três destacamentos ao longo do rio, entre o Pará e o norte do atual Tocantins, numa área de floresta fechada e castanhais.
As duas campanhas militares de 1972 usaram soldados recrutas e não desfizeram o grupo. Parte dos militantes foi presa nessa fase e levada a processo. José Genoino, capturado em abril de 1972, passou pela Justiça Militar e sobreviveu à prisão. Os presos dessa fase entraram nos registros oficiais, e o destino deles é conhecido.
No começo de 1973, o Exército trocou os recrutas por equipes menores de militares especializados em selva e em informação. Moradores foram contratados como guias, e quem ajudava os guerrilheiros com comida ou abrigo passou a ser preso.
A Operação Marajoara trocou o método. Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, entregue em 2014, os militares tinham ordem de não fazer prisioneiros, e os guerrilheiros capturados a partir de outubro de 1973 desapareceram. A comissão listou mais de 60 desaparecidos ligados à guerrilha, entre militantes e camponeses.
Um nome se repete nos relatos dessa fase: Sebastião Curió Rodrigues de Moura, então major do Exército, que conduziu ações de informação na região com o codinome Doutor Luchini. Em 2009, ele abriu ao jornal O Estado de S. Paulo um arquivo pessoal segundo o qual 41 guerrilheiros foram executados depois de presos.
Poucos corpos voltaram às famílias. A ossada de Maria Lúcia Petit da Silva, professora, saiu de um cemitério de Xambioá em 1991 e foi identificada em 1996. Bergson Gurjão Farias, estudante cearense, teve os restos reconhecidos por exame de DNA em 2009. Nos dois casos, a identificação veio por iniciativa das famílias e de peritos civis, anos depois da exumação.
Em que pé o caso está em cada esfera
Na esfera civil, 22 famílias entraram na Justiça Federal em 1982 pedindo a localização dos corpos. A juíza federal Solange Salgado deu a sentença em 2003, mandando a União abrir os arquivos militares e informar onde estão os restos. A decisão transitou em julgado (ficou definitiva, sem recurso possível) em 2007.
Na esfera administrativa, a Lei 9.140, de 1995, reconheceu como mortos os desaparecidos políticos listados nela, os do Araguaia entre eles, e abriu indenização às famílias pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.
Na esfera penal, o Ministério Público Federal denunciou Curió em 2012 por sequestro qualificado de cinco militantes, e também o major Lício Augusto Maciel pelo sequestro de Divino Ferreira de Souza. A tese era a de crime permanente: o sequestro continua enquanto a vítima não aparece, e a anistia só cobre o que terminou até 1979. As ações não chegaram a sentença. Curió morreu em 2022 sem ter sido julgado.
Na esfera internacional, a Corte Interamericana julgou o caso Gomes Lund e outros contra o Brasil e deu a sentença em 24 de novembro de 2010.
Quem responde pelo quê:
• União: Justiça Federal, 2003.
• Militares: denúncias do MPF, 2012.
• Estado brasileiro: Corte IDH, 2010.
• Famílias: Lei 9.140, 1995.
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