O acervo nasceu da coleção de Raymundo Ottoni de Castro Maya, industrial e colecionador carioca que viveu de 1894 a 1968. Ele construiu a casa de Santa Teresa nos anos 1950 e reuniu ali obras de Candido Portinari, Di Cavalcanti e Jean-Baptiste Debret ao lado de pintores europeus que comprou em viagens.
Depois da sua morte, a casa virou museu público, aberto em 1972, e passou à administração federal. A Chácara do Céu e o Museu do Açude, na Floresta da Tijuca, formam os Museus Castro Maya, ligados hoje ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram, autarquia federal que cuida dos museus da União).
As quatro telas levadas eram estas: “A Dança”, de Picasso; “Jardim de Luxemburgo”, de Matisse; “Marinha”, de Monet; e “Os Dois Balcões”, de Dalí, pintado em 1929. Na saída, o grupo levou também um livro de gravuras de Picasso, “Toros”, da mesma coleção.
Poucos museus brasileiros guardavam, numa mesma casa, telas desses quatro mestres europeus do século 20. Castro Maya montou a coleção comprando em galerias da Europa, numa época em que pintura moderna ainda cabia no orçamento de um industrial brasileiro, e deixou tudo ao público.
Segundo o relato dos vigilantes à polícia, os quatro homens entraram como visitantes comuns. Já dentro da casa, sacaram armas, renderam os seguranças e mantiveram os turistas sob ameaça enquanto tiravam as telas da parede. A ação inteira, da entrada à saída, durou poucos minutos.
A fuga usou o carnaval. O museu fica na Rua Murtinho Nobre, e o bloco que passava naquela hora ocupava as ladeiras de ponta a ponta. Os assaltantes não precisaram de carro parado na porta: viraram foliões e desceram o morro no meio da festa, com as obras embrulhadas.
Santa Teresa vive o carnaval de rua com blocos que sobem e descem as ladeiras do bairro desde o começo da tarde. Em dia de desfile, os carros quase não circulam, e o policiamento se concentra no controle da multidão. Ninguém saiu ferido no assalto, segundo a polícia na época.
O museu pertence à União, e o caso ficou com a Polícia Federal, que abriu inquérito (investigação policial formal) logo depois do roubo. As obras entraram no cadastro de bens culturais procurados da Interpol, a polícia internacional, e na lista de crimes de arte mais procurados do FBI.
Nas semanas seguintes, a imprensa noticiou pistas de receptadores no exterior e suspeitas sobre gente ligada ao tráfico de drogas nos morros vizinhos. Nenhuma dessas pistas virou indiciamento (ato em que a polícia aponta formalmente um suspeito) divulgado em público.
Em que pé o caso está em cada esfera
Na esfera penal, não houve indiciamento, denúncia nem sentença divulgados em vinte anos. O inquérito da Polícia Federal não chegou a um réu e foi arquivado provisoriamente por falta de autoria definida.
Na esfera administrativa, não foi divulgada punição a servidor do museu nem à empresa de vigilância. Na esfera civil, não foi divulgada ação de indenização, e as telas não tinham seguro, segundo a direção do museu na época. Na esfera trabalhista, não foi divulgada ação ligada ao roubo.
Quanto a quem responde pelo quê: os quatro assaltantes nunca foram identificados em público, e nenhuma pessoa responde hoje, em tribunal brasileiro, por roubo ou por receptação (crime de quem compra, guarda ou esconde produto de crime) dessas obras.
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